A Origem da Torah.
Evidências Textuais e Históricas sobre a Formação do Pentateuco
A Torah como conhecemos:
Pentateuco são os cinco primeiros livros da Bíblia: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.
Esses cinco livros também compõem o que chamamos de Torah escrita.
As Escrituras Sagradas afirmam que Moisés recebeu o Decálogo (Os 10 Mandamentos) e o Livro da Aliança (o código de leis) no monte Sinai e os escreveu, isso é comprovado em Êxodo 24:4, Êxodo 34:27 e Deuteronômio 31:9.
Já a tradição judaica afirma que Moisés recebeu no Sinai a Torah, que deveria ser escrita, e também uma ‘Torah Oral’, que seria passada de geração a geração, e que serviria para complementar as informações que não estão detalhadas na Torah escrita, isso está relatado na literatura judaica na Mishná no tratado em Pirkei Avot (Ética dos Pais).
Detalharemos com evidências o que se sabe sobre a Torah Oral e a Torah escrita, e sobre a composição da Torah, ou Pentateuco, como temos hoje.
Constatação sobre a Torah Oral:
Ao ler as Escrituras Sagradas e a própria literatura judaica como o Talmud, constatamos que a Torah Oral não veio de Moisés, mas foi uma construção posterior a partir do retorno do exílio babilônico.
Isso pode ser comprovado no Talmud pelas próprias discussões sobre a forma de realizar determinados ritos ou procedimentos.
Se fossem orientações divinas transmitidas a Moisés no Sinai, e passadas de forma oral de geração a geração, não poderiam haver discussões sobre quais formas de fazer seriam as corretas, isso já estaria decidido desde Moisés e deveria ser cumprido sem discussão.
Pesquisadores como Jacob Neusner, o maior especialista moderno sobre o desenvolvimento do Judaísmo Rabínico, nas obras The Rabbinic Traditions about the Pharisees Before 70 (1971, em 3 volumes) e The Emergence of Judaism (2004), demonstra que o conceito de uma Torah Oral foi uma inovação teológica do partido dos fariseus para legitimar suas interpretações contra os saduceus que rejeitavam a Torah Oral.
O historiador Lawrence Schiffman nas obras From Text to Tradition: A History of Second Temple and Rabbinic Judaism (1991) e Reclaiming the Dead Sea Scrolls (1994), também confirma isso.
Historicamente, os saduceus, que era a elite sacerdotal do templo, aceitavam apenas a Torah escrita.
Se a Torah Oral realmente existisse desde o Sinai e fosse de consenso nacional, o principal grupo sacerdotal de Israel não a teria rejeitado.
Schiffman e outros historiadores explicam que os fariseus "criaram" o conceito de autoridade oral mosaica para competir com a autoridade dos sacerdotes.
Arqueologicamente os textos de Qumran (Manuscritos do Mar Morto) também confirmam que diferentes grupos judeus tinham suas próprias interpretações das leis, provando que não existia uma Torah Oral única herdada de Moisés, mas sim várias interpretações e tradições humanas surgidas a partir do período de Esdras.
Os textos da própria Tanakh também demonstram que não havia uma tradição ou interpretação oral passada de geração a geração.
Vemos isso em Neemias 8:1-18 que mostra a leitura pública da Lei após o exílio babilônico, e o povo sendo ensinado ali, e a Festa de Sucot (Cabanas) como uma novidade, demonstrando a ausência de uma tradição oral prévia por parte do povo de Israel, e o texto confirma isso dizendo:
“E acharam escrito na lei que o Senhor ordenara, pelo ministério de Moisés, que os filhos de Israel habitassem em cabanas, na solenidade da festa, no sétimo mês… E toda a congregação dos que tinham voltado do cativeiro fez cabanas ...; porque não tinham feito assim os filhos de Israel desde os dias de Josué, filho de Num, até àquele dia” (Neemias 8:14-17).
O próprio texto bíblico pós-exílico confessa que desde a época da conquista de Canaã com Josué, o povo não celebrava a festa dessa maneira, eles precisaram ler a Torah escrita para relembrar a Festa de Sucot.
O texto não deixa dúvidas de que a prática e as interpretações de como cumprir a Festa de Sucot foram inauguradas ali com a leitura do texto, e não por uma herança oral transmitida de geração a geração desde o Sinai.
Outro texto que mostra a ausência de uma Torah Oral é o que relata o achado do Livro da Lei durante o reinado do Rei Josias em 2 Reis 22:8 a 23:3, e 2 Crônicas 34:14 a 35:19.
Durante a reforma do Templo de Jerusalém o Sumo Sacerdote Hilquias encontra o "Livro da Lei" (que a maioria dos acadêmicos identifica como o núcleo das leis de Deuteronômio).
Quando o livro encontrado é lido diante do rei Josias, ele rasga as suas vestes em sinal de terror e desespero, surpreso ele percebe que nem ele, nem seus pais, nem os sacerdotes sabiam como cumprir os mandamentos de Deus.
A surpresa e o choque de Josias provam que não havia uma tradição oral guiando a nação de Israel por meio dos sacerdotes e levitas.
Se o conceito de uma Torah Oral fosse real entre os sacerdotes e o povo, eles não precisariam encontrar um livro físico para redescobrir como servir a Deus.
Logo após o achado do livro, Josias ordena a celebração da Páscoa (Pessach) e o texto bíblico traz um comentário crucial:
"Nunca se celebrou uma Páscoa como esta desde os dias dos juízes que julgaram a Israel, nem em todos os dias dos reis de Israel, nem dos reis de Judá." (2 Reis 23:22).
O texto afirma categoricamente que durante todo o período dos Reis e dos Juízes (centenas de anos) a maior e mais importante festa de Israel não era praticada conforme o que estava escrito no Livro da Lei.
Ou seja, não havia uma tradição oral preservada por meios dos sacerdotes e levitas, que ensinava a cumprir os mandamentos da festa na ausência de uma Torah escrita.
Isso joga por terra a ideia de uma Torah Oral como a descrita em Pirkei Avot.
Se os sacerdotes, levitas e o povo, esqueceram a forma de celebrar a principal festa da Aliança, fica provado que não existia um sistema de transmissão oral contínuo vindo desde Moisés.
A Torah Escrita:
Sobre a Torah escrita, analisando a forma literária como os cinco livros foram compostos, podemos chegar à conclusão de que eles, da forma como se apresentam hoje, foram escritos posteriormente, e não inteiramente por Moisés.
Isso é comprovado por evidências textuais internas como anacronismos, por exemplo:
- A menção de cidades e povos que não existiam na época, como os Filisteus em Gênesis 21:34 e Gênesis 26:1.
- Duplicatas de histórias com estilos e teologias diferentes como Gênesis 1 e Gênesis 2 e as narrativas fundidas do Dilúvio em Gênesis 6–9.
- A variação dos nomes de Deus em vários capítulos e livros da Torah, indicando o costume de determinadas escolas de escribas.
- O relato da própria morte de Moisés em Deuteronômio 34; e a linguagem literária característica de épocas posteriores, como é o caso do livro de Deuteronômio, que guarda forte paralelo com as reformas do rei Josias no século VII a.C.
Isso deu origem à Hipótese Documentária Clássica de Julius Wellhausen, a qual demonstra que o texto atual é uma fusão de quatro fontes, ou “escolas” distintas (Javista, Eloísta, Deuteronomista e Sacerdotal) compostas entre os séculos IX e V a.C.
- Tradição Javista (J): Escrita por escribas do Reino do Sul (Judá) por volta dos séculos IX ou VIII a.C.
- Tradição Eloísta (E): Escrita por teólogos do Reino do Norte (Israel) por volta do século VIII a.C.
- Tradição Deuteronomista (D): Escrita por profetas, escribas e levitas ligados à corte do rei Josias em Judá (século VII a.C., por volta de 622 a.C.).
- Tradição Sacerdotal (P): Escrita pela elite dos sacerdotes do Templo de Jerusalém durante e logo após o Exílio na Babilônia (século VI a.C.).
Embora a Hipótese Documentária conte com forte apoio no meio acadêmico, teólogos e arqueólogos de linha moderada propõem uma importante releitura desse processo para demonstrar que a Torah não foi uma mera ficção teológica tardia.
Autores como Richard Elliott Friedman, autor de Quem Escreveu a Bíblia? e o egiptólogo James K. Hoffmeier, sustentam que, por trás das fontes tardias, há um núcleo histórico legítimo: a realidade de que Moisés de fato recebeu no Sinai o código de leis básico, a essência do pacto e as instruções primordiais sobre os ritos.
Moisés estabeleceu esse núcleo jurídico simplificado composto pelo Decálogo e pelo Livro da Aliança, citado em Êxodo 24:7, que foi inicialmente preservado tanto pela memória comunitária quanto por registros escritos primitivos em couro ou tábuas de argila.
As orientações detalhadas sobre os ritos e as memórias da jornada no deserto continuaram guardadas e foram registradas por linhagens de sacerdotes e levitas.
Com o tempo, o que dependia puramente da transmissão oral comunitária acabou se perdendo ou sendo negligenciado no período dos juízes e dos reis, como vimos anteriormente nos relatos de Josias e Neemias.
Contudo, aquilo que havia sido formalizado em escritos primitivos e guardado nos santuários permaneceu, servindo de base para as fontes que mais tarde seriam compiladas.
O consenso acadêmico é que Moisés foi o mediador histórico de uma experiência espiritual real no deserto.
Embora o texto escrito que temos hoje tenha sido editado e expandido séculos mais tarde por escribas, a substância, a essência teológica e a semente jurídica de toda a Torah remontam legitimamente à memória e à autoridade histórica do próprio Moisés no Sinai.
Conclusão:
A investigação minuciosa sobre as origens do Pentateuco e o desenvolvimento da tradição de Israel revela um cenário onde a história e a edição literária caminham lado a lado.
Ao confrontarmos as narrativas religiosas tradicionais com as evidências internas das Escrituras e os dados históricos, torna-se evidente que a estrutura conhecida como "Torah Oral" não possui uma linha de transmissão contínua que retroceda ao Sinai.
Os testemunhos escritos sobre Josias, ao redescobrir o Livro da Lei, e de Neemias, ao reinaugurar práticas há muito esquecidas como a Festa de Sucot, expõem de forma incontestável o desconhecimento em relação a práticas, e o profundo desconhecimento das leis escritas séculos antes.
A tradição oral consolidou-se como um valioso compêndio de leis e interpretações construído no período do Segundo Templo para responder às novas realidades do povo pós-exílio.
Por outro lado, a desconstrução da antiguidade da Torah Oral e o reconhecimento de que a Torah Escrita passou pelo refinamento editorial de quatro fontes distintas (J, E, D e P) não esvaziam a legitimidade histórica dos textos.
Conforme sustentam os pesquisadores e a teologia crítica moderada, a Hipótese Documentária não deve ser lida como um atestado de que a Torah é uma ficção tardia, mas como o registro arqueológico-literário de como a semente original sobreviveu até os dias de hoje.
O texto atual é como um repositório de memórias preservadas zelosamente por linhagens sacerdotais e santuários.
Em última análise, embora a literatura e a edição definitiva pertençam aos escribas e teólogos da Judeia, o núcleo jurídico e a essência teológica da Aliança remetem de forma autêntica e legítima à autoridade de Moisés e à experiência espiritual no deserto do Sinai.
Gostaria de deixar ao final duas advertências do apóstolo Paulo:
"⁴ nem se ocupem com fábulas e genealogias sem fim. Essas coisas mais promovem discussões do que o serviço de Deus, na fé." (1 Timóteo 1:4).
"¹³ Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreenda-os severamente, para que sejam sadios na fé ¹⁴ e não se ocupem com fábulas judaicas, nem com mandamentos de gente que se desvia da verdade." (Tito 1:13,14).
Referências Bibliográficas:
- FRIEDMAN, Richard Elliott. Quem Escreveu a Bíblia? Rio de Janeiro: Imago, 1992. (Ou a edição em inglês: Who Wrote the Bible? San Francisco: HarperSanFrancisco, 1987).
- HOFFMEIER, James K. Ancient Israel in Sinai: The Evidence for the Authenticity of the Wilderness Tradition. Oxford: Oxford University Press, 2005.
- NEUSNER, Jacob. The Rabbinic Traditions about the Pharisees Before 70. Leiden: E.J. Brill, 1971. 3 vol.
- SCHIFFMAN, Lawrence H. From Text to Tradition: A History of Second Temple and Rabbinic Judaism. Hoboken: Ktav Publishing House, 1991.
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