Como Ezequiel 20 muda o que aprendemos sobre o Êxodo.
O que não te contaram sobre o povo de Israel no Êxodo
É muito comum nos apegarmos aos textos da Torah e ao estudo das parashiot.
No entanto, quando lemos os livros dos profetas podemos ser surpreendidos por revelações impressionantes.
É exatamente o caso do texto que será apresentado nesse artigo.
Fazendo mérito ao nome do nosso blog – Escritura sem Dogmas – vamos identificar mais alguns mitos nesse artigo.
O que a narrativa linear de Êxodo não nos conta:
Nos relatos da Torah sobre o período em que o povo de Israel peregrinou pelo deserto após sair do Egito, vemos diversos pecados relatados como lashon hará (língua má/fofoca), murmuração, idolatria (bezerro de ouro), rebelião, pecado dos espias e a imoralidade com as mulheres moabitas...
Ao terminar o ciclo anual de leitura da Torah a maioria de nós se dá por satisfeitos e pensamos que já conhecemos toda a história daqueles 40 anos no deserto.
Mas, na verdade não é bem assim, o profeta Ezequiel no capítulo 20, abre as cortinas dos bastidores espirituais e nos traz informações inéditas e chocantes sobre a narrativa do Êxodo.
Ao ler os textos poderemos concluir que, desde o início da formação do povo de Israel, tudo sempre foi para honra do Santo Nome do Eterno e pela graça concedida por Ele, e não por algum mérito humano.
Após essa leitura veremos alguns entendimentos sobre a história do povo de Israel no deserto e sobre a composição da Torah escrita com outro olhar.
Vamos aos versículos de Ezequiel 20:
"¹ No sétimo ano, no quinto mês, aos dez dias do mês, alguns dos anciãos de Israel vieram consultar o Senhor e se assentaram diante de mim. ² Então a palavra do Senhor veio a mim, dizendo: ³ — Filho do homem, fale com os anciãos de Israel e diga-lhes: Assim diz o Senhor Deus: "Por acaso vocês vieram para me consultar? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, vocês não me consultarão." ⁴ — Você está pronto para julgá-los, filho do homem? Você está pronto para julgá-los? Mostre-lhes as abominações que os pais deles praticaram...”
O "sétimo ano" citado no versículo 1 refere-se ao tempo de exílio do rei Joaquim (Jeconias) e do próprio Ezequiel, que foram levados da Terra de Israel na primeira deportação babilônica em 597 a.C.
Esse encontro ocorreu por volta de agosto de 591 a.C., aproximadamente cinco anos antes da destruição final de Jerusalém e do Primeiro Templo por Nabucodonosor, que aconteceria em 586 a.C.
Ezequiel vivia com uma comunidade de exilados judeus junto ao rio Quebar, na Babilônia (Ezequiel 1:1).
Os anciãos que foram visitá-lo eram líderes comunitários desse grupo de refugiados, eles foram consultar o profeta para saber o futuro de Jerusalém, provavelmente buscavam uma palavra de esperança, uma previsão de que o exílio seria curto ou que a capital do Reino de Judá não cairia.
Mas Deus se recusa a responder à consulta deles, em vez disso ordena que Ezequiel atue como um promotor em um tribunal, e fará nos próximos versículos uma retrospectiva histórica para provar que a nação acumulava abominações desde o Egito, e que a destruição que se aproximava de Jerusalém era um julgamento totalmente justo.
Os pecados que não estão relatados na Torah:
“⁵ e diga-lhes: Assim diz o Senhor Deus: "No dia em que escolhi Israel, levantando a mão, jurei à descendência da casa de Jacó e me dei a conhecer a eles na terra do Egito; levantei a mão e jurei, dizendo: ‘Eu sou o Senhor, seu Deus.’ ⁶ Naquele dia, jurei tirá-los da terra do Egito e levá-los para uma terra que lhes tinha previsto, uma terra que mana leite e mel, coroa de todas as terras. ⁷ Então eu lhes disse: ‘Cada um de vocês deve jogar fora as abominações de que se agradam os seus olhos. Não se contaminem com os ídolos do Egito; eu sou o Senhor, seu Deus.’ ⁸ Mas eles se rebelaram contra mim e não quiseram me ouvir. Ninguém jogava fora as abominações de que se agradavam os seus olhos, nem abandonava os ídolos do Egito. Então eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir a minha ira contra eles, no meio da terra do Egito. ⁹ Mas agi por amor do meu nome, para que não fosse profanado diante das nações no meio das quais eles estavam, diante das quais eu me dei a conhecer a eles, para os tirar da terra do Egito."
Aqui o Eterno começa a trazer revelações históricas completamente novas.
Temos o primeiro mito caindo – sempre nos foi ensinado que o povo de Israel no Egito, em sua maioria, era fiel a Deus, mas o texto derruba essa narrativa e aponta a infidelidade e a rebeldia do povo de Israel ainda no Egito.
No verso 5 lemos “...me dei a conhecer a eles...Eu sou o Senhor, seu Deus.’”
deixando claro que o povo não O conhecia, porém na Torah vemos que o povo clamou a Deus por ajuda.
A Torah confirma que o povo clamou por ajuda e que Deus ouviu em Êxodo 2:23-24 que diz "...os filhos de Israel gemiam sob a servidão e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus. Deus ouviu o seu gemido e lembrou-se da sua aliança com Abraão, com Isaque e com Jacó."
O texto diz que eles clamaram 'por causa da servidão', mas Deus respondeu por causa da 'aliança', um compromisso espiritual firmado com os patriarcas.
Essa aliança havia sido firmada séculos antes com Abraão em Gênesis 15:18, e renovada com Isaque em Gênesis 26:3 e Jacó em Gênesis 28:13.
A intervenção divina não foi pela fidelidade daquela geração, mas o cumprimento do juramento feito a seus patriarcas.
Como o verso 5 de Ezequiel mostra, o povo não conhecia a Deus, portanto o clamor genuíno de fé e o apego ao Deus dos patriarcas veio de um remanescente, enquanto a grande massa do povo estava assimilada culturalmente ao Egito.
A frase de Ezequiel 20:5 faz um paralelo com Êxodo 6:2, 3, 7, onde Deus explica a Moisés que o Seu Nome e a Sua identidade precisavam ser revelados àquela geração, pois eles haviam perdido essa conexão:
"Falou mais Deus a Moisés e lhe disse: 'Eu sou o Senhor. Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como o Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, O Senhor YHWH, não me dei a conhecer a eles...'Eu os tomarei por meu povo e serei o seu Deus; e vocês saberão que eu sou o Senhor, seu Deus, que os tiro de debaixo das cargas do Egito."
O Midrash e Rashi no comentário sobre Êxodo 13:18 confirmam que a maioria do povo de Israel no Egito não queria sair, estava tão corrompida que acabou morrendo durante a nona praga (trevas), restando apenas uma fração, um remanescente, para sair e cruzar o mar.
Nas traduções em português diz que os filhos de Israel saíram do Egito "armados", no hebraico a palavra é Chamushim, e Rashi explica:
"A palavra Chamushim significa 'um de cinco' (Echad MeChamesh). Apenas um quinto (1/5) dos israelitas saíram do Egito, enquanto os outros quatro quintos (4/5) morreram lá durante os três dias da praga das trevas."
Indicando que apenas um remanescente ou 1/5 do povo realmente foi fiel ao chamado de Deus e saiu dali.
No versículo 7 de Ezequiel 20, Deus ordena a purificação dentro do Egito, mostrando que o povo de Israel praticava a idolatria egípcia.
No livro de Êxodo a narrativa foca inteiramente na opressão da escravidão e no clamor do povo por causa do sofrimento, a Torah não relata que eles estavam corrompidos pela idolatria e deveriam abandonar os deuses egípcios.
O versículo 8 é ainda mais surpreendente pois usa o termo rebelião, o povo de Israel se recusou obedecer a Deus e abandonar os ídolos, e por isso quase foram destruídos ainda no Egito.
Essa é a informação mais chocante desse bloco – em Êxodo Deus derrama Seu furor e Sua ira apenas sobre o Faraó e os egípcios, através das dez pragas, o texto de Êxodo dá a entender que o povo de Israel era apenas um espectador protegido na terra de Gósen; mas o texto de Ezequiel revela que Deus pensou em destruir os israelitas ainda no Egito por causa de sua rebeldia e apego aos ídolos pagãos.
No verso 9 vemos que Deus só não agiu contra eles para que O Nome Dele não fosse profanado entre os egípcios, mas na Torah esse argumento só aparece depois quando o povo de Israel já está no deserto em Êxodo 32:12, quando Moisés intercede pelo povo após o pecado do bezerro de ouro.
O profeta revela que Israel foi libertado porque Deus já havia anunciado publicamente às nações através das pragas, que tiraria o povo dali.
Destruí-los no Egito faria as nações pagãs pensarem que o Deus de Israel falhou.
O texto de Josué 24:14 confirma o pecado de Israel ainda no Egito, ao final da vida Josué diz ao povo "Deitem fora os deuses a que os vossos pais serviram d'além do Rio e no Egito, e sirvam ao Senhor."
Isso prova que a idolatria no Egito era de conhecimento geral entre os líderes de Israel, portanto, a saída do Egito foi por amor ao Nome Divino, e a promessa feita aos patriarcas, e não um ato de misericórdia para um povo infiel.
O Shabat no deserto: Pecado sistêmico ou crises isoladas?
“¹⁰ — "Eu os tirei da terra do Egito e os levei para o deserto. ¹¹ Dei-lhes os meus estatutos e lhes fiz conhecer os meus juízos, pelos quais o ser humano viverá, se os cumprir. ¹² Também lhes dei os meus sábados, para servirem de sinal entre mim e eles, para que soubessem que eu sou o Senhor que os santifica. ¹³ Mas a casa de Israel se rebelou contra mim no deserto, não andando nos meus estatutos e rejeitando os meus juízos, pelos quais viverá aquele que os cumprir; e profanaram grandemente os meus sábados. Então eu disse que derramaria sobre eles o meu furor no deserto, para os consumir. ¹⁴ Mas agi por amor do meu nome, para que não fosse profanado aos olhos das nações diante das quais os tirei do Egito."
Nesse trecho temos o segundo mito caindo – de que eles pecavam apenas por medo ou fraqueza momentânea.
Ezequiel no verso 13 revela que o povo se rebela novamente contra Deus, e, pasmem, profana grandemente os sábados.
A Torah relata vários momentos em que Deus decide consumir o povo no deserto por rebeldia, como quando eles fizeram o bezerro de ouro em Êxodo 32, e na queixa sobre a falta de carne em Números 11.
Mas a Torah não relata que houve uma profanação coletiva e contínua do Shabat no deserto.
Os únicos relatos em Êxodo e Números são de infrações pontuais como pessoas que saíram para colher o Maná no sétimo dia e foram repreendidas em Êxodo 16:27, e o homem que colhia lenha em Números 15:32.
O profeta diz que a profanação do Shabat no deserto era um pecado sistêmico e generalizado da nação ao dizer "profanaram grandemente", sendo esse um dos motivos principais da ira divina.
Nesse texto de Ezequiel, a narrativa é contada diretamente por Deus através do profeta, e afirma que Ele mesmo decide conter Sua mão de forma soberana para proteger a reputação do Seu Nome perante as nações.
“¹⁵ — Além disso, no deserto, jurei que não os levaria à terra que lhes tinha dado, uma terra que mana leite e mel, coroa de todas as terras. ¹⁶ Porque rejeitaram os meus juízos, não andaram nos meus estatutos e profanaram os meus sábados, pois o seu coração se voltava para os seus ídolos. ¹⁷ Mas os meus olhos tiveram piedade deles e eu não os destruí, nem os consumi totalmente no deserto. ¹⁸ — Então eu disse aos seus filhos no deserto: ‘Não andem nos estatutos de seus pais, nem guardem os seus juízos, nem se contaminem com os seus ídolos. ¹⁹ Eu sou o Senhor, seu Deus. Andem nos meus estatutos, guardem os meus juízos e coloquem-nos em prática. ²⁰ Santifiquem os meus sábados, pois servirão de sinal entre mim e vocês, para que saibam que eu sou o Senhor, seu Deus.”
Nesse bloco vemos os reais motivos da punição da primeira geração – eles rejeitavam os juízos e estatutos, profanavam os sábados, e os seus corações ainda se voltavam para os ídolos do Egito.
É até difícil pra nós imaginar com após ter presenciado tantos milagres, aquele povo ainda tinha coragem de transgredir os mandamentos dados no Sinai e cultuava ídolos do Egito.
Na Torah, o motivo pelo qual a primeira geração foi proibida de entrar na terra foi a falta de fé e o medo dos gigantes (Números 14:11), não diz que no episódio dos espiões eles agiram influenciados por uma idolatria ativa.
Mas Deus revela através de Ezequiel a verdadeira condição espiritual daquela geração: O medo de entrar na Terra Prometida e a falta de confiança em Deus era um sintoma, e a causa era que eles ainda mantinham secretamente o coração ligado aos ídolos do Egito.
Estêvão em Atos 7:42-43 cita o profeta Amós para provar que a primeira geração no deserto cultuava astros e deuses pagãos ao dizer "Será que vocês me trouxeram sacrifícios e ofertas durante os quarenta anos no deserto, ó casa de Israel? Pelo contrário, vocês carregaram a tenda de Moloque e a estrela do deus Renfã..."
Esse texto de Ezequiel nos ajuda a entender melhor porque Amós e Estevão disseram isso.
Também vemos no verso 18 a advertência de Deus a nova geração, para não agirem conforme os seus pais.
O livro de Deuteronômio contém os discursos de Moisés à segunda geração antes de cruzarem o Jordão, Moisés os exorta exaustivamente a guardarem a lei.
Na Torah Deus nunca se refere às Suas Leis como "estatutos dos pais", mas em Ezequiel, há uma nova informação, Deus fala diretamente aos filhos alertando-os contra a cultura e as tradições corrompidas criadas pelos seus pais no deserto ao dizer "Não andem nos estatutos de seus pais, nem guardem os seus juízos." E alerta dizendo ”Andem nos meus estatutos, guardem os meus juízos...”
Deus contrasta os "juízos dos pais" com os "Meus juízos", a Lei original, indicando que os "estatutos dos pais" mencionados no verso 18 não eram a Torah dada por Deus, mas sim os costumes corrompidos e práticas idólatras que a primeira geração copiou do Egito ou criou no deserto, transmitindo-as culturalmente aos filhos.
Isso também demonstra que a afirmação de que uma “Torah oral” foi dada no Sinai, pode não ser bem assim como os rabinos afirmam hoje, para saber mais sobre isso veja nosso artigo aqui.
O mito da segunda geração “santa”:
“²¹ Mas também os filhos se rebelaram contra mim e não andaram nos meus estatutos, nem guardaram os meus juízos, pelos quais o ser humano viverá, se os cumprir; pelo contrário, eles profanaram os meus sábados. Então eu disse que derramaria sobre eles o meu furor, para cumprir contra eles a minha ira no deserto. ²² Mas contive a minha mão e agi por amor do meu nome, para que não fosse profanado aos olhos das nações diante das quais os tirei do Egito."
Temos mais um mito derrubado, e esse é o mais surpreendente até agora.
Muitos de nós aprendemos que a segunda geração, liderada por Josué, era uma geração melhor e mais fiel a Deus do que a de seus pais, mas o versículo nos mostra o contrário.
O texto nos apresenta uma das revelações mais impressionantes e severas, que muda profundamente a nossa visão sobre o final da peregrinação no deserto – a rebelião e a profanação dos sábados pelos filhos.
Flávio Josefo em Antiguidades Judaicas, Livro IV, Cap. 4-5 relata o episódio de Baal-Peor e o final no deserto, Josefo descreve que a sedução das mulheres moabitas não foi um pecado isolado de poucas pessoas, mas uma verdadeira conspiração anárquica dos jovens líderes da segunda geração contra as Leis de Deus.
Josefo relata que houve debates acalorados onde jovens confrontaram Moisés publicamente exigindo o direito de viver como as outras nações.
Isso corrobora o termo "rebelaram-se" usado em Ezequiel para a segunda geração.
A Torah registra um grande episódio de rebelião da segunda geração no final dos 40 anos de deserto, o pecado em Baal-Peor registrado em Números 25, onde os jovens israelitas se corromperam com as mulheres moabitas e adoraram seus deuses.
Nessa ocasião o furor de Deus de fato se acendeu, gerando uma praga que matou em torno de 24 mil pessoas.
Assim como fez com a primeira geração, a Torah não relata em momento algum que os filhos, a segunda geração, quebravam e profanavam o Shabat de forma coletiva e generalizada enquanto viviam no deserto.
Mas Ezequiel traz essa nova informação de que a crise com o Shabat não foi resolvida com a morte dos pais, os filhos continuaram a prática de profanar o sábado no acampamento.
Na Torah quando a segunda geração peca gravemente em Baal-Peor, a ira de Deus não é contida de forma soberana por causa das nações, a praga só cessa por causa da atitude radical de Finéias (Pinchas, neto de Arão) que executa um casal de transgressores no meio do acampamento conforme relatado em Números 25:7-8, e Deus chega a dizer textualmente que Pinchas "desviou a minha ira de sobre os filhos de Israel... de modo que não consumi os filhos de Israel no meu zelo."
O texto de Ezequiel nos revela um pouco do pensamento divino naquele momento, o ato de zelo de Pinchas aplacou a praga na história, mas no panorama espiritual o que realmente segurou o Braço de Deus para não erradicar a nação inteira, foi não profanar o Seu Santo Nome perante as nações pagãs ao redor.
Deus conteve Sua própria Mão de forma ativa e interna para que o Seu plano maior de introduzir um povo na terra não falhasse diante dos olhos das nações.
Este bloco quebra o mito de que a segunda geração era santa e fiel em contraste com seus pais.
Ezequiel revela que os filhos eram tão rebeldes e propensos a quebrar o Shabat quanto a geração anterior, a entrada deles na Terra Prometida não foi um prêmio por bom comportamento, mas um ato de misericórdia divina guiado pela preservação da reputação do Nome de Deus perante o mundo.
O relógio regulado: O decreto do exílio assinado no deserto:
“²³ — “Mais uma vez, no deserto, jurei dispersá-los entre as nações e espalhá-los por outras terras, ²⁴ porque não executaram os meus juízos, rejeitaram os meus estatutos, profanaram os meus sábados, e os seus olhos se voltavam para os ídolos de seus pais.”
O profeta Ezequiel nos revela o momento em que o destino de Israel no exílio foi selado, temos uma das comparações mais trágicas entre o texto da Torah e a tradição profética.
Na Torah nos livros de Levítico 26:33 e Deuteronômio 28:64, Deus avisa que o exílio e a dispersão entre as nações aconteceriam como uma possibilidade futura, caso o povo entrasse na terra, vivesse nela por gerações e se corrompesse no futuro.
A nova informação de Ezequiel muda isso, o profeta revela que o decreto divino para o exílio não foi decidido séculos depois, no tempo dos Reis, mas no deserto antes deles entrarem na Terra Prometida.
A entrada na Terra Prometida acontece sob a sombra do exílio jurado já no deserto, o exílio deixou de ser uma "ameaça condicional", como sempre nos foi ensinado, e virou um "juramento profético."
Na Torah os pecados no deserto aparecem como crises isoladas: o bezerro de ouro, a queixa sobre o Maná, o caso de Baal-Peor, e cada geração parece ter o seu próprio erro pontual.
Mas Ezequiel revela uma linha de continuidade na rebeldia que é hereditária.
Os filhos pecaram porque “olhavam para trás” imitando o que os seus pais faziam secretamente em suas tendas, quando o texto diz "os seus olhos se voltavam para os ídolos de seus pais."
A quebra do Shabat e a rejeição dos juízos eram um padrão contínuo que passava de pai para filho no deserto.
Este trecho mostra que antes de cruzarem o rio Jordão e pisar na Terra Prometida, a paciência divina já havia esgotado a ponto de um juramento de dispersão nacional ter sido decretado.
A história posterior de Israel na terra já começou com um "relógio ajustado" para o exílio.
O Talmud no Tratado Sanhedrin 102a e Sotah 35a diz que os sábios judeus discutem o pecado dos espiões (Números 14) e o choro do povo naquela noite, o Talmud afirma textualmente "Aquele dia era a noite de Tisha B'Av (9 de Av). Deus disse a eles 'Vocês choraram hoje sem motivo; por isso, estabelecerá este dia como um choro para as vossas gerações [o dia da destruição do Templo e do Exílio].”
Ezequiel usa a expressão "jurei dispersá-los", vale dizer que na teologia bíblica um juramento divino (shevuah) geralmente indica que o decreto se tornou irrevogável, diferente de uma profecia de aviso comum.
O arrependimento nacional em alguns períodos, como no reinado de reis justos, funcionava apenas como um “freio” que adiava o cumprimento desse juramento, porém, como a herança de rebeldia persistiu de geração em geração, o “relógio profético” finalmente bateu a hora do decreto ser executado.
O versículo mais difícil de Ezequiel: Deus deu Leis más?
“²⁵ Por isso também lhes dei estatutos que não eram bons e juízos pelos quais não haviam de viver. ²⁶ Permiti que eles se contaminassem com as suas dádivas, como quando queimavam os seus filhos primogênitos. Fiz isso para que ficassem horrorizados e para que soubessem que eu sou o Senhor.”
Esse é o bloco mais chocante do texto, para o judaísmo esse trecho ecoa o princípio no tratado talmúdico Pirkei Avot 4:2 “Averá goreret averá – O salário de um mandamento é outro mandamento, e o salário de um pecado é outro pecado".
Quando o povo insiste em pecar no deserto, Deus remove a clareza mental deles permitindo que adotem costumes idólatras dos povos cananeus para que fiquem "horrorizados" e percebam os seus erros.
A ideia de que "Deus entregou o povo ao engano e ao pecado por causa da teimosia" é exatamente o conceito trazido pelo apóstolo Paulo.
Em Romanos 1:24-28, Paulo repete três vezes que como a humanidade rejeitou a Deus, "Deus os entregou" às suas próprias paixões, as impurezas e a uma disposição mental reprovável.
Em 2 Tessalonicenses 2:11 Paulo usa a mesma lógica, “Deus lhes envia a operação do erro, para que creiam na mentira" como consequência de terem rejeitado a verdade.
Em Ezequiel 20:25, ocorre o mesmo conceito, não significa que Deus criou leis moralmente más, mas que diante da rejeição obstinada do povo, Deus retirou Sua proteção intelectual e os entregou às consequências de seus próprios erros, como o sacrifício de crianças a deuses pagãos citado logo no versículo 26.
A Torah condena o sacrifício de crianças em Levítico 18:21 e 20:2-5.
Deus decreta pena de morte para quem entregar seus filhos a Moloque.
Na Torah o “sacrifício” de primogênitos a Deus consistia apenas em consagrá-los ao serviço do Senhor ou resgatá-los financeiramente como explica o mandamento em Êxodo 13:13.
Diante da insistência do povo em imitar o paganismo, Deus mudou a Sua forma de agir, o "dar" estatutos ruins no versículo é a retirada de proteção intelectual como citam as passagens de Paulo, e permitir que eles seguissem esse engano macabro para que ficassem horrorizados e colhessem o fruto de sua própria desobediência.
Deus não criou leis más; Ele entregou um povo teimoso à sua própria loucura ritual como punição.
Uma revelação profética perturbadora sobre os desvios de Israel:
”²⁷ — Portanto, fale à casa de Israel, ó filho do homem, e diga-lhes: Assim diz o Senhor Deus: "Ainda nisto os pais de vocês blasfemaram contra mim, na infidelidade que cometeram contra mim: ²⁸ quando eu os introduzi na terra que havia jurado dar-lhes, onde quer que viam um monte alto e uma árvore frondosa, aí ofereciam os seus sacrifícios, apresentavam suas ofertas provocantes, punham os seus aromas agradáveis e ofereciam as suas libações."
Esse bloco cita a continuidade dos erros na Terra Prometida, e Deuteronômio capítulos 31 e 32 funcionam como o paralelo desse aviso.
No segundo Cântico de Moisés (Shirat Haazinu) Deus avisa textualmente que assim que o povo entrasse na terra e se fartasse, eles iriam trair a aliança ao dizer "Eles me provocaram a ciúmes com aquilo que não é Deus; com as suas abominações me irritaram" (Deuteronômio 32:16).
Isso confirma o versículo 28 – a idolatria nos altos e árvores frondosas
“...quando eu os introduzi na terra... onde quer que viam um monte alto e uma árvore frondosa, aí ofereciam os seus sacrifícios...”
Na Torah, nos livros de Josué e Juízes, vemos o povo entrando na terra.
Em Juízes relata que eles adoraram os deuses locais Baal e Astarote, no entanto, a descrição específica de transformar "cada monte alto e árvore frondosa" em um santuário de sacrifícios e libações provocantes é a assinatura clássica da idolatria do período dos Reis descrita em 1 Reis e 2 Reis.
O profeta unifica a história mostra que o vício de buscar "altares alternativos" e descentralizar o culto — violando a lei de Deuteronômio 12 — começou logo após eles pisaram na terra como diz a expressão "quando eu os introduzi na terra".
Ezequiel mostra aos anciãos que estavam sentados diante dele na Babilônia que o pecado que causou a queda de Jerusalém, como a idolatria nos montes altos descrita em Reis, não era uma novidade da geração deles, Era a mesma semente do deserto que havia crescido e finalmente frutificado.
O peso silencioso de Moisés e Josué:
Ao ler esse último bloco que apresentamos sobre Ezequiel 20, e logo em seguida ler Deuteronômio 31 e 32, fica difícil não se comover ao pensar que tanto Moisés quanto Josué já sabiam que o povo estava condenado, mas mesmo assim encontraram forças para cumprir a vontade do Senhor e introduzir o povo de Israel na Terra Prometida.
Em Deuteronômio 31:21 e 29 Moisés diz textualmente "Porque eu sei que, depois da minha morte, vocês se corromperão totalmente... Então o mal lhes sobrevirá..."
Ele escreveu o cântico sabendo que estava escrevendo o próprio fracasso do seu povo.
Josué no final da vida, em Josué 24:19, repete esse peso ao dizer francamente à segunda geração "Vocês não poderão servir ao Senhor, porque ele é Deus Santo, Deus zeloso, que não perdoará a sua transgressão nem os seus pecados."
Deixo abaixo os links para leitura dos textos na íntegra
Que lição podemos tirar de tudo isso?
Vemos claramente que o povo de Israel pecava gravemente no Egito, insistia em permanecer nos mesmos erros no deserto, e continuou repetindo a desobediência a Deus após entrar na Terra Prometida, como um sinal de rebeldia.
Vemos também que Deus ouviu as orações e clamores do remanescente fiel no Egito, interveio por fidelidade à aliança firmada com os patriarcas, que eram fiéis, e só não destruiu o povo para que as nações pagãs não profanassem o Seu Santo Nome.
A decisão de Deus, de não destruir o povo nos 40 anos do Êxodo, mas decretar o exílio assírio e babilônico ainda no deserto, mostra que Ele é Deus de amor e misericórdia, mas também é Deus de severidade e justiça, e que pune quem peca contra Ele.
Isso é explicado no conceito judaico dos Dois Atributos Divinos: Midat HaRachamim (o Atributo da Misericórdia) e Midat HaDin (o Atributo da Justiça) na qual o equilíbrio desses dois atributos é o que sustenta o universo.
Em sua presciência, Deus sabia que o povo continuaria pecando contra Ele, mas ainda assim Ele ajudou o povo de Israel a entrar na Terra Prometida, como vemos em diversos momentos no livro de Josué, guiou e orientou a nação de Israel por meio de profetas, e permitiu reis justos, como Davi, para que a nação permanecesse, porém não a isentou da dívida, ela foi cobrada no devido momento quando os pecados da nação atingiram seu auge.
Isso prova que Deus não anulou a aliança firmada com os patriarcas de Israel, como alguns líderes cristãos pregam por aí.
A eleição de Israel é eterna porque depende do caráter imutável de Deus, e não do comportamento do povo.
Como diz o Talmud no Tratado Sanhedrin 44a "Israel, mesmo quando peca, continua sendo Israel."
O apóstolo Paulo advertiu os crentes gentios de Roma quanto a sua soberba em relação aos judeus em Romanos 11:
“Pergunto, pois: Acaso Deus rejeitou o seu povo? De maneira nenhuma!
Deus não rejeitou o seu povo, o qual de antemão conheceu...
Novamente pergunto: Acaso tropeçaram para que ficassem caídos? De maneira nenhuma!
Ao contrário, por causa da transgressão deles, veio salvação para os gentios, para provocar ciúme em Israel...
Se alguns ramos foram cortados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado entre os outros e agora participa da seiva que vem da raiz da oliveira, não se glorie contra esses ramos.
Se o fizer, saiba que não é você quem sustenta a raiz, mas a raiz a você...
Afinal de contas, se você foi cortado de uma oliveira brava por natureza e, de maneira antinatural, foi enxertado numa oliveira cultivada, quanto mais serão enxertados os ramos naturais em sua própria oliveira?...
E assim todo o Israel será salvo, como está escrito: "Virá de Sião o redentor que desviará de Jacó a impiedade.
E esta é a minha aliança com eles quando eu remover os seus pecados.
Quanto ao evangelho, eles são inimigos por causa de vocês; mas quanto à eleição, são amados por causa dos patriarcas, pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis.
Assim como vocês, que antes eram desobedientes a Deus mas agora receberam misericórdia, graças à desobediência deles, assim também agora eles se tornaram desobedientes, a fim de que também recebam agora misericórdia, graças à misericórdia de Deus para com vocês.
Pois Deus colocou todos sob a desobediência, para exercer misericórdia para com todos.”
E para finalizar confirmando a aliança de Deus com Israel até os dias de hoje, deixo alguns belos versículos do profeta Oséias.
“Eu me casarei com você para sempre; eu me casarei com você com justiça e retidão, com amor e compaixão. Eu me casarei com você com fidelidade, e você reconhecerá o Senhor.” Oséias 2:19,20.
” Eu a plantarei para mim mesmo na terra; tratarei com amor aquela que chamei Não amada. Direi àquele chamado ‘Não-meu-povo’: Você é meu povo; e ele dirá: ‘Tu és o meu Deus’.” Oséias 2:23
“Eu curarei a infidelidade deles e os amarei de todo o meu coração, pois a minha ira desviou-se deles. Serei como orvalho para Israel; ele florescerá como o lírio. Como o cedro do Líbano aprofundará suas raízes; seus brotos crescerão. Seu esplendor será como o da oliveira, sua fragrância como a do cedro do Líbano.” Oséias 14:4-6.
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