Como os fariseus criaram o kosher.
O que as evidências revelam.
Introdução:
Resolvi escrever esse artigo após ver tantos debates na internet por causa desse tema.
Vejo muita desinformação, muitos entendimentos próprios que não levam em conta os fatos históricos, e uma polarização semelhante a que ocorre na política, de um lado uns dizem que não é necessário carne kosher, e do outro lado uns afirmam que toda carne que não passa pelo processo de shechitá não deve ser consumida pelos seguidores de Yeshua.
Pra quem ainda não sabe, shechitá são as regras judaicas para o abate de um animal para que a carne seja considerada pura e própria para o consumo, isso de acordo com o judaísmo ortodoxo.
Vemos pessoas e famílias inteiras de crentes em Yeshua que estão em teshuvá, deixando de comer carne por causa da falta de entendimento sobre o assunto.
Vemos rabinos messiânicos que falam uma coisa, outros dizem outra, mas vamos estudar melhor o assunto.
Vou me basear nas Escrituras Sagradas, nos fatos históricos, e na arqueologia e expor claramente as informações sobre isso aqui.
O que diz a Brit Chadashá?
Em Atos 15 ficou definido para os gentios crentes 4 mandamentos, entre eles o relacionado a carne kosher, se abster do sangue.
Não vemos em nenhum versículo da Brit Chadashá orientações de que os gentios crentes deveriam seguir procedimentos de shechitá para se abster do sangue ao consumir carne.
Ora, se esses procedimentos eram padrão da época e eram mandamentos divinos de uma “Torah oral” recebida no Sinai, por que os apóstolos não orientaram que fossem seguidos?
Esses procedimentos de shechitá eram realmente praticados na época do Segundo Templo?
Eles são realmente mandamentos ou orientações recebidas no Sinai?
Veremos abaixo.
O que diz a Torah?
Não vou falar aqui sobre animais que o consumo é permitido ou proibido, isso está na Torah, e penso que deve ser obedecido.
A Torah ordena que não coma a carne com sangue, e que ao abater um animal para consumo, o sangue do animal seja derramado no solo e coberto com o pó da terra, isso está em Levítico 17:13.
Em Deuteronômio autoriza que cada um possa abater o animal destinado para consumo próprio em sua propriedade, isso está em Deuteronômio 12:15 e 12:21.
Se cada um pode abater em sua propriedade, o que mais podem argumentar?Que tinha um levita em cada casa a disposição pra fazer a sechitá?
Ou que cada homem tinha formação em shechitá?
Na Torah temos somente isso e nada mais, vamos para as evidências históricas abaixo.
O testemunho de Flávio Josefo:
Flávio Josefo foi um historiador judeu do século I que viveu exatamente na mesma época de Yeshua e dos apóstolos.
Ele pertencia à seita dos fariseus e escreveu extensivamente sobre os costumes judaicos para o público romano nas obras Antiguidades Judaicas e Contra Ápion.
Josefo explica detalhadamente as Leis de Moisés para os estrangeiros, mencionando a proibição do sangue e as regras do Templo.
No entanto, Josefo nunca menciona o complexo sistema de regras da Shechitá (que hoje é o abate kosher) ou a inspeção pulmonar que os rabinos exigem hoje.
Se naquela época o abate de cada frango ou cordeiro na Judeia dependesse de um ritual técnico controlado por inspetores fariseus, um historiador minucioso como Josefo teria descrito isso como uma marca de distinção cultural dos judeus, mas ele silencia completamente sobre o tema.
Evidência arqueológica – marcas de corte nos ossos da Galileia:
Escavações arqueológicas em vilas judaicas do período romano (século I a.C. ao século I d.C.), como em Cafarnaum e Nazaré, trazem restos de ossos de animais consumidos nas refeições diárias das famílias.
Os arqueólogos e zooarqueólogos analisam as marcas microscópicas que as facas deixavam nos ossos ao separar as juntas da carne.
Os padrões de corte revelam que o abate doméstico na Galileia no tempo de Jesus era comum, rústico e variado, sem nenhuma padronização cirúrgica.
Não há indícios de que o camponês usasse lâminas especiais inspecionadas sem nenhuma ranhura, como exige a lei farisaica posterior.
Eles usavam as facas utilitárias do dia a dia para matar o animal e sangrá-lo, exatamente como Deuteronômio permite.
As complexas normas da Shechitá, regulamentadas posteriormente no Tratado Chulin da Mishná, não possui correspondência material com a prática da Judeia do primeiro século, isso é provado por estudos contemporâneos de zooarqueologia na região da Galileia, como as pesquisas publicadas pelo arqueólogo Israel Finkelstein e especialistas em cultura material do Segundo Templo.
Esse distanciamento evidencia que as regras do kosher talmúdico são construções identitárias e jurídicas desenvolvidas pelos fariseus e rabinos na Diáspora, as quais foram reprojetadas sobre o texto mosaico para legitimar a autoridade desses novos sábios após a queda de Jerusalém.
Ao cruzarmos o silêncio do historiador Flávio Josefo e os dados da zooarqueologia contemporânea na Galileia do século I, confirmamos que no período do Segundo Templo, o abate para consumo diário era realizado sob a concessão doméstica de Deuteronômio 12, caracterizando um ato civil comum e descentralizado, e não um ritual cheio de exigências como hoje.
De onde veio a shechitá?
Respondendo francamente, dos fariseus.
Os fariseus são uma seita judaica que surgiu no século II a.C. (durante o período Hasmoneu).
Um dos princípios do farisaísmo era trazer a santidade do Templo para dentro do lar judeu através de ritos domésticos como a lavagem das mãos por exemplo.
Eles criaram diversas regras de santidade e pureza para serem aplicadas pelo cidadão comum.
E para apoiar e incentivar o cidadão a segui-los, eles criaram uma narrativa teológica de uma “Torah oral” dada no Sinai a Moisés;
Essa narrativa é refutada em vários estudos, se quiser saber mais sobre isso clique na obra clássica do historiador Jacob Neusner, The Rabbinic Traditions about the Pharisee before 70 e no nosso artigo aqui.
Um detalhe importante que precisa ser mencionado é que os fariseus não eram sacerdotes, muitas vezes as pessoas confundem isso, mas eles eram estudiosos da Torah.
Quem detinha profundamente os conhecimentos sobre os detalhes que a Torah escrita apenas resume, como os ritos por exemplo, eram os sacerdotes e não os fariseus.
Apesar disso os fariseus debatiam sobre diversos temas, inclusive sobre detalhes da tradição oral que eram de conhecimento dos sacerdotes e levitas.
O próprio Talmud prova isso nos debates sobre as forma de fazer isso ou aquilo, porém a questão que fica é: se estivessem debatendo sobre uma “Torah oral” recebida no Sinai, não poderiam haver discussões entre rabinos sobre a forma de fazer, deveria ser feito como foi aprendido sem discussão!
Temos provas disso como os debates no Talmud registrados ao longo de todo o Tratado de Chullin na Guemará.
A outra seita judaica daquele período, os saduceus, não aceitavam a “Torah oral” dos fariseus porque eles sabiam muito bem que era uma narrativa farisaica criada no século II a.C. diferente da tradição oral mantida entre os sacerdotes e levitas de geração a geração.
É importante ressaltar que, uma coisa são os ensinos e detalhes que foram passados por Moisés aos levitas e sacerdotes, e que complementam o que está na Torah escrita.
Esses ensinos eram mantidos e aplicados de geração a geração pelos sacerdotes e levitas nos serviços ritualísticos, isso sim se encaixa como uma Torah Oral.
Outra coisa são regras e mandamentos criados ao longo dos séculos pelo Sanhedrin (comissão de juízes) e que no tempo de Yeshua era formada inclusive por fariseus e saduceus.
Isso são tradições e interpretações, não cabe aqui condenar ou apoiar, mas o fato é que historicamente não se trata de uma "Torah oral."
Com o fim do Segundo Templo e a destruição de Jerusalém pelos romanos, a elite sacerdotal do Templo deixou de existir, restando somente os fariseus que se refugiaram no litoral, na cidade de Yavne, e ali formaram uma escola rabínica que definiu os padrões do judaísmo que vemos ate hoje, isso é comprovado em registros do próprio Talmud no Tratado de Gittin 56a-56b, que narra a fuga de Yohanan ben Zakkai para Yavne.
Nessa “escola de Yavne” foram debatidas diversas leis e rituais de pureza dos fariseus do Templo, e algumas foram aplicadas como padrão para os judeus, que agora deveriam mais do que nunca trazer a santidade para dentro de seus lares já que não havia mais o Templo.
Sobre isso o historiador Shaye Cohen, em seu livro From the Maccabees to the Mishnah, diz que a destruição do Templo forçou a transformação do judaísmo sectário em um judaísmo rabínico unificado, onde o estudo da lei e os ritos domésticos substituíram os sacrifícios de sangue.
Resumindo, foi aí que ficou definido a sechitá e o padrão de carne kosher.
O próprio Talmud mostra debates entre rabinos sobre as formas de realizar a shechitá, comprovando assim que não era uma tradição antiga recebida no Sinai.
A Mishná Chullin 1:1 abre ditando as regras de quem pode e quem não pode abater: "Todos podem abater... exceto o surdo, o insensato e o menor...".
Ela dita o que fazer, mas repare que ela não cita nenhum versículo da Torah para provar de onde tirou essas regras de Shabat, facas ou restrições.
Ela simplesmente assume que os sábios têm a autoridade para ditar a regra.
A prova que os próprios rabinos sabiam que as regras cirúrgicas detalhadas não estavam escritas na Torah está na discussão do Talmud na folha 28a, os rabinos começam a debater de onde vem a ordem de cortar especificamente a traqueia e o esôfago do animal (as duas "artérias/canais", chamados de Simanim).
A Confissão Textual está em Chullin 28a:5: O Talmud tenta encontrar uma base bíblica, os rabinos citam Deuteronômio 12:21 que diz “abaterás... como te ordenei”, mas o próprio texto da Guemará admite que o texto bíblico escrito não explica como fazer isso.
Eles concluem textualmente: “As leis do abate [os detalhes cirúrgicos] não estão escritas na Torah; em vez disso, são uma Halakhah dada a Moisés no Sinai [uma tradição puramente oral]”.
Quando os rabinos recorrem ao argumento de que uma lei é uma "Halakhah le-Moshe mi-Sinai" (uma tradição oral não escrita entregue a Moisés), eles estão admitindo que não há nenhuma evidência, pista, palavra ou rastro textual daquela regra dentro do livro da Torah.
Ao ler o tratado Chulin, a própria redação rabínica deixa evidente que aquelas regras eram somente interpretações dos sábios.
Eles tentam usar a expressão de Deuteronômio 12:21 "abaterás... como te ordenei" como um gancho teológico, mas os debates registrados entre os rabinos (como as famosas disputas entre a Escola de Hilel e a Escola de Shamai no século I) provam que não havia uma regra fixa vinda do Sinai.
Se a regra fosse um mandamento divino intocado desde Moisés, os rabinos do século I não estariam discutindo e votando para decidir se o corte em falso anulava ou não a carne.
Por que hoje as pessoas acham que isso está na Torá?
A confusão que observamos hoje na internet, de pessoas associando o kosher talmúdico diretamente à Torah, ocorre por causa de um processo histórico chamado Monopólio da Memória.
Quando os romanos destruíram o Templo no ano 70 d.C., os sacerdotes saduceus perderam o emprego e desapareceram da história.
O único grupo organizado que sobrou para liderar o povo judeu no exílio foram os fariseus, que viraram os rabinos.
Como eles passaram a controlar o Judaísmo sozinhos pelos próximos 2.000 anos, os rabinos ensinaram às próximas gerações que as interpretações deles eram a própria Torah de Moisés.
Com o tempo, a distinção entre o que era o texto bíblico do deserto e o que era a tradição rabínica se perdeu na mente do público geral.
Comer carne comum é pecado?
Sinceramente, a proibição da Torah é sobre a ingestão de sangue, e não sobre uma carne que não passou por uma inspeção rabínica e rituais de bençãos durante o abate.
Mas em relação a carne comum vendida em mercados e açougues, o animal é sangrado no abate?
Sim, no caso de aves por exemplo, se o animal não tiver seu sangue drenado a carne muda de cor, fica com aparência um pouco mais escurecida e muda o sabor, quem já conviveu no interior e já participou de abates em áreas rurais sabe disso.
Com relação aos bovinos também é assim, a orientação padrão da Embrapa é que o animal tenha o sangue drenado também, a Embrapa inclusive padronizou o processo para minimizar o sofrimento do animal e garantir que o sangue tenha sido retirado.
Isso pode ser confirmado no Manual de Boas Práticas de Manejo no Abate de Bovinos da Embrapa e do Ministério da Agricultura (MAPA), que estipula o atordoamento humanitário seguido imediatamente por uma sangria cirúrgica eficiente para remover cerca de 70% do sangue total circulante.
Ao ler o documento notamos que o animal sofre menos que na shechitá pois ele está vivo porém inconsciente, ele não sente nada.
Para acessar o documento clique aqui e confira da página 89 em diante.
A Vigilância Sanitária das cidades e estados também fiscaliza e exige que os padrões sejam aplicados para garantir a segurança alimentar de quem consome a carne.
Isso pode ser verificado nas diretrizes do RIISPOA (Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal), que proíbe o comércio de carnes mal sangradas devido ao alto risco de putrefação bacteriana rápida que o sangue retido causa.
Isso pode ser confirmado em estudos de ciência dos alimentos sobre a anomalia DFD (Dark, Firm and Dry - Escura, Firme e Seca), que comprovam que falhas na sangria ou estresse elevam o pH da musculatura, alterando drasticamente a cor visual da carne e estragando os compostos aromáticos que dão o sabor correto ao alimento.
Claro que em todos os ramos existem profissionais desonestos, e pode haver algum frigorífico, açougue ou matadouro particular que está desobedecendo as normas sanitárias.
Mas mesmo dessa forma, essa carne não estaria nos mercados e açougues porque a presença do sangue na carne, quando não é derramado no abate, deixa a carne com a cor escurecida, o consumidor consegue notar isso no ato da compra, e ao prepará-la a carne fica com o sabor prejudicado, fora o fato de que ela estragaria rapidamente, mesmo no freezer.
Espero que esse artigo tenha conseguido trazer mais segurança e tranquilidade para você que está preocupado com medo de pecar ao comer carne convencional vendida nos comércios.
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